
A Taanteatro Companhia é fundada em 1991 em São Paulo pela coreógrafa Maura Baiocchi e por integrantes do Núcleo Taantécnica Butoh. Depois de estudar a dança japonesa de vanguarda butoh com Kazuo Ohno e Min Tanaka entre 1987 e 1989, Baiocchi apresenta seu repertório de solos com considerável impacto midiático em teatros paulistas e atrai um grande número de dançarinos e atores para seu núcleo de formação. A noiva que se assusta vendo a vida aberta e O quadrado que ri são os primeiros espetáculos do núcleo, têm forte influência da dança butoh e se baseam na exploração da mitologia (trans)pessoal dos performers.
De 1991 a 1992, os conceitos principais do taanteatro – tensão, ent(r)e, pentamusculatura – são formulados em linhas gerais por meio do projeto Taanteatro – Para uma transformação da dança premiado pelas Bolsas Vitae de Arte e Cultura. Simultaneamente e em cooperação com integrantes do núcleo, Baiocchi conclui a dramaturgia de O Livro dos Mortos de Alice, obra inaugural da companhia apresentada em quatro capítulos (um por noite) nos Teatros SESC Pinheiros e no Teatro Municipal de Santo André. A criação de O Livro emerge dos processos de preparação, pesquisa e criação próprios do taanteatro – levantamento de mitologia (trans)pessoal, esforço, caminhada, mandala de energia corporal – ao mesmo tempo que promove seu aperfeiçoamento metodológico. A encenação “sequestra” Alice dos espelhos de Lewis Carrol ao labirinto da mitologia grega e os estados liminares entre morte e nascimento do Bardo Todhol e do Livro dos Mortos. Traz, além do trabalho coreográfico coletivo e solista, extensos diálogos e já evidencia uma vocação de exploração de linguagens muito além das particularidades estéticas do butoh.
Paralelamente, Maura Baiocchi estrea no Teatro da Universidade Católica de São Paulo o solo Frida Kahlo: Uma Mulher de Pedra dá Luz à Noite convidado logo a seguir ao Butoh and Related Arts Festival 92 em Bremen/Alemenha. A exploração do universo do butoh atinge seu ápice com a Mostra 95 Butoh e Teatro Pesquisa. Com curadoria de Baiocchi a mostra, executada ao mesmo tempo em São Paulo, Curitiba e Brasília, oferece espetáculos, vídeos, exposições, oficinas e debates e traz pela primeira vez artistas como Min Tanaka, Ko Morubushi e Iwana Masaki ao Brasil. Por ocasião do evento, Baiocchi publica o livro Butoh – Dança Veredas D’Alma.
Desde o período de sua consolidação, a Taanteatro Companhia cria cerca de 50 espetáculos, em sua maioria autorais, inspirados pela vida e obra de artistas e poetas como Frida Kahlo, Florbela Espanca, Lewis Carrol, Antonin Artaud, Comte de Lautréamont, Fernando Pessoa, Robert Walser, George Tabori, Heiner Müller, Friedrich Hölderlin, Samuel Beckett, William Shakespeare e Friedrich Nietzsche.
Realiza também intervenções urbanas e performances em ambientes naturais relacionando vivências e narrativas dos integrantes da companhia com questões sociopolíticas contemporâneas.
Em 1996 o trabalho da companhia toma um novo rumo a partir do estudo da obra de Antonin Artaud. Nesse ano Wolfgang Pannek idealiza e produz em homenagem ao centenário do poeta e teatrólogo francês a mostra internacional Artaud 100 Anos. A programação do projeto realizado no MASP, na Cinemateca, na Rádio USP e no Teatro Sérgio Cardoso conta com leituras, exposições e mostra de filmes. Pannek comissiona ao Teatro Oficina a encenação de Para dar um fim no juízo de deus e convida o coreógrafo e diretor japonês Min Tanaka a encenar A Conquista com elenco brasileiro.
A Taanteatro Companhia participa da mostra com Artaud – onde deus corre com olhos de uma mulher cega, concebido por Baiocchi, e inicia com esse espetáculo os Diálogos (Des)Encantatórios, compostos por Arará – Histórias que os ossos cantam (1997), Cantos de Maldoror (1998/99), Matéria 1ª a 3ª Forma (1998 a 1999).
No mesmo período, encena autores da dramaturgia e literatura mundiais: Homen Branco e Cara Vermelha (1998/99) de George Tabori protagonizado por Lineu Dias, Primeiro Fausto (1999) de Fernando Pessoa com Domingos Nunes e Esperando Godot de Samual Beckett em formato de intervenção urbana (2000).
No ano de 1999, em homenagem ao filósofo e poeta alemão Friedrich Nietzsche, a Taanteatro inaugura o Ciclo Nietzsche, work in progress de uma década que culminaria na encenação de !Zaratustra! em 2009 no Teatro da Caixa DF e no Complexo Funarte Teatro Plínio Marcos em Brasília. O Ciclo Nietzsche desencadeia um processo de colaboração multidisciplinar de mais de uma centena de criadores das áreas de dança, teatro, música, artes plásticas, fashion-design, fotografia, vídeo, antropologia e filosofia. Leva à criação de dezesseis espetáculos, entre solos e obras de médio e grande porte, apresentados no Brasil, Alemanha, Argentina, Estados Unidos e Moçambique: Matéria Estado de Potência (1999), MatériaAmor (1999), MateriaMuerte (2000), Assim Falou Zaratustra – 4ª parte (2001), Solos Nietzsche (2001), !Submerge! (2002), Matéria 4º Estado (2004), Xiphamanine – o eterno originar da árvore Mphama (2005), Máquina Zaratustra (2006/07), A hora mais solitária (2007) e !Zaratustra! (2009).
Desde a sua fundação a Taanteatro Companhia dedica-se concomitantemente à pesquisa, formação e criação artísticas. Difunde o teatro coreográfico de tensões não somente através de suas próprias produções, mas também por meio de oficinas, preparação corporal, assessoria, supervisão, coreografia e direção em cooperação com outras companhias, a televisão, diretores de cinema e universidades. A partir de 2001 a Taanteatro Oficina Residência com realização anual na sede rural da companhia em São Lourenço da Serra atrai participantes do Brasil e do exterior. Fora do contexto das artes performáticas a abordagem taanteatro é também empregada para fins terapêuticos e de criatividade em geral.
Entre os projetos de cooperação, destacam-se Os Sertões do Teatro Oficina (2002 a 2004) onde os diretores realizam a preparação corporal e a coreografia dos espetáculos A Terra, O Homem e O Transhomem (Prêmio APCA/Melhor Espetáculo) e Xiphamanine: eterno originar da árvore mphama, espetáculo coreográfico-musical criado em 2005, a convite do Município da Matola/Moçambique e com co-patrocínio do Ministério da Cultura do Brasil. Xiphamanine resultou de uma oficina-montagem junto à Companhia Municipal de Canto e Dança da Matola. É apresentado no Centro Cultural Banco de Moçambique e no teatro Cine África da capital Maputo e transmitido na íntegra em rede nacional pela TVM (Televisão de Moçambique).
A pesquisa taanteatro, hoje tema de artigos e de dissertações de graduação e pós-graduação, ganha reconhecimento acadêmico em 2006 através do mestrado de Maura Baiocchi intitulado Corpo e comunicação em processo: o princípio tensão na experiência taanteatro. Defendido no departamento de comunicação e semiótica da PUC São Paulo, a dissertação atualizada é publicada no ano seguinte sob o título Taanteatro: teatro coreográfico de tensões dando início a um projeto de publicações artístico-didáticas ampliado em 2011 com o livro Taanteatro – rito de passagem.
Ao longo de duas décadas, o trabalho de pesquisa e criação da Taanteato está presente em temporadas, mostras e festivais em diversos estados brasileiros. Chega à Alemanha, Argentina, Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão e, como mencionado, à Moçambique. Nessa trajetória destaca-se o intercâmbio com a Argentina. Desde 1995 a companhia apresenta com frequência espetáculos, oficinas e eventos no país vizinho. Conta com a colaboração de artistas argentinos em várias de suas produções. Em 2011 essa cooperação é coroada pela publicação de Taanteatro – teatro coreográfico de tensiones no Editorial da Universidade Nacional de Córdoba.
No curso de sua história Taanteatro Companhia amplia e aperfeiçoa seu repertório conceitual e metodológico. Entre os conceitos mais recentes figuram o eterno originar, a vontade de tensão, esquizopresença e ecoperformance. Com o intuito de estimular a discussão sobre as relações entre as artes performáticas e o meio ambiente, a companhia funda em 2011 o Fórum de Ecoperformance, evento multidisciplinar de realização anual. Às atividades de difusão que transcendem o trabalho próprio, acrescenta-se ainda a produção de palestras, seminários e exposições de artistas e teóricos convidados como, por exemplo, a Expedição Butoh (2006) da artista-pesquisadora francesa Nourit Masson Sékiné na Fundação Japão São Paulo, a Hans Thies Lehmann Brasil Tour 2010 e Criação, Curadoria, Crítica e palestra da editora teatral inglesa Dorothy Max Prior.
A luta por políticas culturais voltadas ao fomento da dança e das artes cênicas em geral é outro campo de atuação da companhia. Integra desde 2004 o Mobilização Dança, movimento responsável pela implantação da Lei de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo.
Entre seus projetos de grande porte Taanteatro + 15 Anos (2006/07), DAN (2010/11) e Taanteatro 20 Anos (2011/12) são selecionados pelo Programa Municipal de Fomento à Dança para São Paulo. As encenações Máquina Zaratustra, !Zaratustra! e DAN devir ancestral são contempladas pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna. Os espetáculos premiados nesses contextos – Máquina Zaratustra, Frida Kahlo: uma mulher de pedra dá luz à noite, !Zaratustra!, Rit.U, Dan devir ancestral, Máquina Hamlet Fisted e Danças [Im]Puras – são apresentados em temporadas em São Paulo e em festivais diversos em Brasília, Ceará, Goiânia, Espírito Santo e Bahia.
Em 2011 a Taanteatro Companhia completa 20 de existência, pesquisa e criação. Responde à data comemorativa com a ampla e diversificada programação do projeto Taanteatro 20 Anos: reencenação de Máquina Hamlet Fisted e DAN devir ancestral, criação e apresentação de Danças [Im]Puras, NuTAAN 2011/12, mostra de video, Fórum de Ecoperformance, oficinas, palestras.
A programação se estende até o final de 2012. Máquina Hamlet Fisted é eleito Melhor Espetáculo de Dança 2011 pela enquete do Guia da Folha de S. Paulo. O SESC Ipiranga organiza o Ciclo Taanteatro. A companhia participa ainda do 1º Festival Internacional de Arte de Brasília, dos Repertórios Coreográficos do SESC Ipiranga, do Festival Vivadança em Salvador/Bahia, da III Plataforma Estado de Dança e da Mostra do Fomento na Galeria Olido, além de realizar apresentações nos teatros Espaço Cariris, O Lugar, Satyros, Galeria Olido, CEU Perus, Coletivo e Sérgio Cardoso.
Na Argentina a Taanteatro Companhia coproduz o projeto Misturas realizado no Cabildo Histórico, coordena as oficinas na Universidade de Córdoba e no Centro Cultural Heitor Tizon em San Salvador de Jujuy. Encerra suas atividades de 2012 com a oficina Butoh-Ohno no Barn em Tivoli/Nova Iorque.
Prêmios
